segunda-feira, 28 de novembro de 2022

O amor é questão de percepção (?)

As nossas percepções de mundo variam conforme passam os anos. Num dia, pensamos ser a pessoa mais incrível e amorosa do planeta; em contrapartida, medos, traumas e inseguranças vêm à tona ecoando nas nossas cabeças e nos lembrando do quanto fomos maltratados por outros que sequer achamos terem um pingo de bondade. Muda-se a rotina e passamos a nos ver da pior forma possível.

É que a raiva e a mágoa da vasta imensidão de experiências negativas e de ruínas pela qual passamos constantemente, aliadas à desconfiança de todos e ao medo de “quebrar a cara” mais uma vez, nos comparam a uma aranha-armadeira: sempre pronta a defender-se de quem quer que seja. O dilema? Os venenos desse animal se tornam uma toxina devastadora. Uma vez mordidos pela aranha, sabemos dos riscos que corremos e aprendemos a nos defender e a evitar certas dores, mesmo que, para isso, outro seja mordido. Daí o fato de sermos tóxicos. Ora, se você nunca foi tóxico, acredite: seu momento chegará.

O problema é que o veneno que acumulamos incessantemente, após várias mordidas desse animal peçonhento, nos torna amargos; isso machuca a quem amamos e também a pessoas que ao menos tiveram culpa do que nos causa dor. O ciclo se repete: gente confusa e machucada fere gente convicta e sã, fazendo com que outros acumulem veneno e se tornem tão tóxicos quanto nós. As inseguranças causadas pela dor da mordida nos pesam demasiadamente, obrigando-nos a tomar atitudes que talvez nunca tomaríamos se não estivéssemos sob pressão. Quem é que nunca manipulou alguém para conseguir o que queria ou o que precisava? 

Mas, como toda moeda, a percepção do que passamos tem dois lados: quem é que, nesse mundo cheio de ego, nunca deixou suas batalhas e convicções de lado para permitir-se conseguir uma oportunidade única que, em qualquer hipótese, poderia ser recusada? Às vezes, coisas como essa, de abandonar uma oportunidade, acontecem por amor. Já ocorreu com vários. Ignorar a ânsia de conhecer outro país para não romper o relacionamento com aquele que amamos, por exemplo, é abandonar uma oportunidade meramente por amor. Ou, quem sabe, por medo de nunca mais encontrar alguém tão especial quanto aquele que se ama, porque o pavor de estar sozinho já foi motivo de dor - seria esse medo um traço tóxico contra nós mesmos?

Ouvi dizer uma vez que o amor não machuca, pois sequer existe. O que sentimos pelo outro, na verdade, é uma conjuntura de sentimentos abstratos, nefastos e sombrios, incompreendidos por tudo e todos, numa nuance de excitação, bem estar, desejo, medo e sensação de posse, fazendo-nos sucumbir aos ciúmes e à desvalorização da auto estima e do amor próprio. Daí surge o termo “obsolescência programada”: tudo é feito para estragar um dia, inclusive o nosso coração. Enquanto somos crianças puras e inocentes, buscamos não ver a desolação que o mundo conserva. Por isso, o primeiro amor, quando rompido, nos destroça por inteiro: idealizamos alguém com base no que desejamos. Sim, o amor é idealista: imaginamos na pessoa amada um arquétipo de altruísmo e honestidade. Porém, quando a realidade vem à tona e vemos a tempestade formar-se na pessoa que amamos, a nossa montanha de sentimentos desmorona, e custamos acreditar que essa cena aconteceu de verdade. Já é tarde, e ficamos presos a um círculo de manipulação, tentando reacender as chamas de um fogo de palha.

É como se fôssemos projetos de super-heróis tentando encontrar a aorta e, nela, plantar a semente do bem e do amor. O quão desgastante isso se torna no decorrer dos dias? Por que se tenta, incessantemente, localizar a pontinha positiva em pessoas que nos amassam como uma máquina sobre um asfalto velho e quebradiço? Cada um enxerga o que lhe convém ou o que lhe fora arduamente ensinado em suas experiências de vida. São as percepções que construímos ao longo do tempo que nos constroem enquanto seres humanos.

Percepções… como pode uma pessoa destoar tanto de outra quando se trata da maneira de enxergar as coisas? Talvez sejam percepções vazias e sem fundamento que inibem a capacidade de ver outras percepções mais coerentes, quando se trata do que nos machuca, do que nos mata e do que nos fortalece. Enfim; tudo isso é apenas a MINHA percepção. O quanto mais ela mudará após essas palavras confusas e cheias de indagação? Quiçá, daqui a alguns anos, voltarei para escrever sobre o mesmo tema com outra percepção. (?).

sexta-feira, 9 de junho de 2017

Ow, tu me ajuda a escrever um texto?

        Eu não sei escrever. Eu tô aqui, matutando um tema, tentando colocar as ideia no papel, mas não sai nada! Eu preciso URGENTE escrever sobre uma situação que aconteceu comigo; é prum trabalho da escola. Trabalho de português, sabe? Esses textinho que as professora passa, sei lá o nome disso. Crônica! É esse o nome. Tenho que escrever uma crônica sobre uma situação que aconteceu comigo. Ma meu DEEEEEEEEUS, que que eu vou escrever? Qual situação? O pior é que não sei escrever. Eu escrevendo é a mema coisa que minha irmã cozinhando: só dá treta.
        Ah, tipo, eu poderia escrever sobre o dia que caiu pedra na minha casa, né? Tá, deixa eu contar. Eu e a mãe tava em casa de boa... ela tava tomando café e eu tava assistindo Pokémon. Tá. Dai ela disse que ia fazer as unha e voltava de noite. Falei “Blz, de boa, vou fazer um miojo aqui”. E ela foi. Tava dando uma garoinha bem gostosa, um ventinho, sabe?! Tava um frio bem gostoso. Dai blz.
        Levantei do sofá pra fazer o miojo, acho que era de galinha caipira o sabor. Peguei a panelinha, coloquei a água esquentar e abri uma caxinha de leite. Dai esperei um poquinho, coloquei o miojo na panela e pronto. Eu vi que começou a fazer uns barulho estranho no teto, tipo uns pingo de chuva forte, sabe? Ma nem dei bola. Pensei que tava só engrossando a chuva. Blz.
         Escorri o miojo, coloquei no prato, temperei e cortei. A hora que eu coloquei a primeira garfada na boca, começou a chover ainda mais forte. Parecia que tavam tacando umas bomba!!! Tava muito alto o barulho. Era tipo TA TA TA TA TA PA PA PA TA TA PAAA!!! A hora que eu botei os pé pra fora da porta, eu olho a grama toda branca... A área de casa, nem se fala! Dai me veio uma pedrinha de gelo nos pé. Deuzolivre, que dor. Fechei a porta correndo, aquele ventão que vinha contra mim. Pensei “Caraaaaaaaio, comassim?”. Tá.
        Quando eu realmente vi que era uma baita de umas pedrona, me enfiei d'baixo da mesa do medo que me deu. Peguei o celular e fiquei mandando áudio no zap pra minha irmã. Tava morrendo de medo, véi. Larguei tudo o miojo, só fui correndo cobrir o notebook e o carregador com uma almofada, que dai se furasse o forro, pelo menos o note não ia quebrar. Só ficou eu ali sozinho, acrocado... e a bonita da mãe fazendo as unha!
        A hora que passou a tormenta, os vizinho tudo ficaro apavorado e começaro a tira foto das grama e tal. Eu vi que na minha casa fez só uns três, quatro buraco. Na do vizinho da frente encharcou tudo! Nossa, coitado... teve que comprar um monte de móvel novo. Ficou uma semana o falatório dessa pedreira. Era gente desesperada, pedaço de lona na rua... as construtora e os pedreiro ganharo uma nota nesses dia. Ma deu tudo certo, o povo da minha cidade é bem solidário, um ajuda o outro. Dai a mãe veio pra casa e deu tudo certo. Falei pra ela: "Aaaaaah, ma bem bonita a senhora né?! Em vez de vim aqui me socorrer, não, fica lá se produzindo...". Dai ela me disse assim: "Ah, ma tu é home pra quê?! Tu tem que se defender!". Minha mãe sabe me dá patada hein... Mal sabe ela que sou um homem covarde (conta pra ninguém não, ma eu tenho medo de barata)!
         Baaaaaah cara, fiquei aqui conversando contigo sobre as minhas ideia e esqueci do trabalho... Foda é que eu não sei escrever. Tu me ajuda?

quinta-feira, 11 de maio de 2017

#ForaTemer

Uma fala consistente, uma postura fina
De terno e gravata, escondendo a propina
A lábia era boa, dava ar de salvação
Brasil, acorda! O movimento bate na sua porta!

“Vamos privatizar, povo tem muita prioridade,
Educação e saúde – investir nisso é maldade!”
Te conto eu, com firmeza, meu compadre:
Eles tudo são uns bando de covarde

Que tenho eu a perder?
Meu tempo, talvez, que já é curto
Mas lembra-los, amigos, preciso:

Basta, Temer, seu imundo!
Vás-te embora com esse surto
Em meu país, que não mais curto
E leve junto seu falso sorriso
De quem planta ideologias
Que com o povo só sabe ser corrupto

Ai da mulher que tu derrubaste...
Lula bem sabe, a esperança renasce
E nós, juntos, derrubaremos a tua classe

Mas hei, não me arrase!
Abraçou o dinheiro, mostrou a própria face!
Falso, imundo, #ForaTemer!!!
Minha terra tem palmeiras onde canta o desastre...

quinta-feira, 27 de abril de 2017

O garoto que não disse adeus

Olhem, que fofinho... Há dezenove anos, nasceu um bebezinho lindo, que, por sinal, pouco se parecia com seus pais. Todos que estavam dentro do centro cirúrgico olharam para aquela figurinha sapeca e, provavelmente, pensaram: Nossa, nada a ver com a mãe; com o pai, menos ainda! A famosa “cara de joelho” foi a expressão que todos usaram para designar tal aspecto de recém-nascido do bebê, ao contrário de sua mãe que, por conta do excessivo amor que sentia, pronunciou as mais sinceras palavras que alguém possa ter dito: Aaaaai, que lindo! E não demorou muito tempo para esse amor ser cada vez mais demonstrado.
            A criança que, antes, era aquele simples e amável bebê, passou a caminhar, a falar, a entender e a interpretar o mundo ao seu redor. Logo de cara percebeu o que são as sensações, os sentimentos e as emoções, por que os vilões sempre perdem para os heróis nos desenhos animados, como se faz pra desenhar, escrever e fazer continha e, mais além disso, já começou a desenvolver a famosa empatia. Dá uma olhadinha aqui no que esse garoto falou: Mãe, tu viu que eu fiço um desenho pa tia? Acho que ela vai gostá! Se isso não for empatia, então não sei o que é. E não para por aí, sabe por quê? Porque a criança cresceu.
            Mas não pense você que esse garoto era o tempo todo paparicado. NÃAAAO! Na escola, até mesmo com seus simplórios (e escalafobéticos?) sete anos, seus amiguinhos já começaram a taxa-lo por um termo bem... como posso dizer?! Inapropriado? Não, não é essa a palavra... Acho que posso usar impactante – gay. “Fulaninhoooo, seu gayzinhoooo hahahaha”. Choraaaava e chorava de medo de ser um “gayzinho”. E em casa não era diferente. Não se discutia sobre um filho ter dois papais ou duas mamães. Homem só pode se casar com mulher e mulher, com homem, dizia a família. A criança, sem entender direito o porquê desse tipo de conversa, saía da cozinha e ia brincar com seus brinquedinhos ou comer um lanchinho ou assistir a um desenho ou os três ao mesmo tempo, por que não? Foi crescendo até ser um pré-adolescente.
            O recém pré-adolescente passou a entender o conceito de sexo, a prática da ereção e, aí, começou a questionar-se sobre o sentido da vida: Por que vivemos? E, se vivemos, por que morremos?, pensava o pobre garoto. Seu lado infantil, lentamente, começa a desaparecer. As responsabilidades passam a ser jogadas na cara, como forma de mostrar que a imaginação não ajuda em nada (eu discordo, mas tudo bem, continuemos). Levanta daí e vem limpar esse chão, dizia sua mãe (e com razão, mas poderia ser menos grossa, né?!). A imaginação ainda acontecia, mas começou a perder a graça. Aquele sonho de ser um mutante superpoderoso já não tinha mais tanto sentido porque, de acordo com a física, é impossível usar a simples força da mente para parar um caminhão. E assim chegou a adolescência.
            Obscuridade, medo, insegurança, desequilíbrio hormonal e emotivo, risos, fome, sono, anseio, alegria, raiva, crise existencial, paixão e saudade da infância. Essas são as principais características de um adolescente e esse nosso garoto não fugia disso. Passou a descobrir em si mesmo novos modos de pensar e de ser. Descobriu, internamente, uma característica extremamente chocante e que precisava, de toda forma, ser oculta! Meu Deus, eu não posso contar pra ninguém!, pensava o tristonho. Mas isso não era tudo. As músicas, as palavras, as histórias, as leituras, as aulas, as amizades... Era uma confusão! Era perturbador deixar de ser criança! Cadê as paparicagens? Cadê as tarefas fáceis? Cadê o lanchinho servido no prato? Cadê a criatividade e a imaginação? Sumiram. Com 12 anos, o pobre garoto ainda estava tenso demais para viver.
            Mas como (quase) tudo na vida, as coisas negativas têm momento para acabar. Adeus, adolescência. Bem-vinda, juventude! As conturbações diminuíram, as espinhas, lentamente, começaram a secar e a aparência até que melhorou, mas só um pouquinho. O mais importante é que a essência se solidificou, o medo do garoto de ser ele mesmo passou a ir embora e somente assim contou pra família que era o dito “gayzinho”. Pronto. Bastou um desabafo, um descarrego do peso.
            Lembram daquele “lindinho recém-nascido”? E daquele garoto cheio de sonhos e esperanças? Lembram quando eu contei que ele saía da mesa pra ir brincar de imaginar? Pois é. Esse garotinho que, supostamente, tinha tudo para ser paparicado e amado por todos, na verdade, só era amado porque ainda não sabia falar e se expressar. As pessoas não amam o que somos quando nascemos, mas sim o que querem que sejamos. Esse lindo garoto apanhou dos pais e dos irmãos, foi expulso de casa e passou a viver sozinho. Até tinha amigos que o apoiavam, mas quem poderia mantê-lo desempregado? Foi complicado. O garoto morreu por dentro e não demorou muito pra morrer por fora também. Como estava na rua, morreu passando fome e foi embora sem ao menos dizer Adeus.

quinta-feira, 14 de julho de 2016

Bora brincá de fala certim?

A nossa fala é incrível. Já percebeu que cada pessoa fala de um jeito? Até porque se todo mundo falasse igual, o mundo ia ficar sem graça. Não ia ter entonação diferente, nem sons mais agudos ou mais graves, nem músicas legais, nem palestras interessantes... Ia ser um amontoado de gente chata falando.
Eu só fico puto com uma coisa: quando alguém diz que eu falo errado. Maaaano do céu, faz isso não! Pensa assim: comé que você vai falar que alguém fala errado se a pessoa simplesmente fala diferente de você? Tipo assim, a pessoa fala “pobrema”. Mas é o jeito que ela aprendeu. Se você aprendeu “problema”, pobrema é seu! Cada um tem sua linguage, tendeu? Não tá errado, como também não tá certo.
Alguém só fala errado quando fica falando coisa sem sentido. Tipo, esses dia eu fui no mercado né, daí cheguei pra moça e falei: “Moça, me dá três pão de quejo”. Ela me olhou e falou assim: “Não seriam três pães de queijo?”. HUUUUH! QUE RAIVA! Odeio gente escrota. Sai fora, muié! Xinguei e não voltei mais. Comprei um pacote de sagaldinho e fui pra casa.
Daí chegando em casa né, eu abri o pacote d’salgadinho e fui sentá na poutrona. Dabem que tinha coca. Sô loco por coca, nossa! Dai eu liguei a tv e tava passando Pokémon. Meeee eu sô viciado em Pokémon desde criança, mano! Dai eu fiquei assistindo uns três episódio e acabô. Era umas sete da noite e eu tava com fome de novo. Ainda bem que tinha miojo em caza senão ia pirà o cabeção. Dai eu jantei o miojo e tomei café com leite. Dai comi mais um pãozinho e fui tomá um banho. Eu tinha que dá uma palestra as oito e meia sobre educação infantil.
Cheguei na palestra, me apresentei e pá dai deu tudo certo. O pessoal gostô de mim. Eles tudo batero pauma pra mim e pá dai eu saí de lá e fui pra casa dormi. No otro dia tava falando igual um dotor... Si bem qui eu tenho doutorado. Terminei faz uns três ano. Tá achando istranho eu falando assim migo?  Teu nível de estudo e teu dinheiro não fais tu falar “melhor” ou “pior”. Só prova que tu é um preconceituoso de língua se pensa assim. Não seje igual as moça do pão lá que me dero patada. Seje felis! Um abrasso!

terça-feira, 22 de março de 2016

Com amor, coxinha

A tal da coxinha é complicada. Não é fácil imaginar algum alimento que se compare ao sabor dessa danada! Essa textura exuberante, estilo violão pontiagudo, que remete a uma resplandecência nos quesitos cor atraente e beleza externa... Ah, como eu quero uma coxinha!
            O problema é que, geralmente, seu preço sai caro. Ainda mais nesses restaurantes de viagem que a gente para pra jantar. Numa ida minha a São Paulo, perguntei pro atendente:
- Moço, quanto custa a coxinha?
            E, com olhar de esperança e alegria, respondeu-me:
- Oito reais... Quer uma?
            Cair pra trás foi pouco pra descrever esse momento. É como se você estivesse sendo assaltado, tendo que escolher entre a sua vida e a da sua mãe. Oito reais? Que isso?! Fiquei indignado. Só que, se você parar para pensar, uma coxinha é uma coxinha e deve ser respeitada como tal! Pra que julgá-la por ser tão gostosa? Sua delícia compensa seu preço. Respondi:
- Sim, me dá uma de carne, por favor!
- Beleza, só um momento, que eu vou esquentar ela pra você...
            Fiquei ansioso e exaltado. Há quanto tempo não comia uma coxinha? Uns três dias? É, por aí...
            A coxinha estava quente. Fiquei atraído pelo seu cheiro e quase virei de ponta-cabeça por conta da sua preciosidade. Peguei o prato com a delícia estampada e fui pra mesa, pedindo que o garçom me servisse um pouco de café preto. Sentei-me e ele me serviu. Comi a coxinha como se estivesse morrendo de fome ou coisa do tipo. Aqueles pedaços maravilhosos feitos de ouros comestíveis se entrelaçavam com a minha língua e formavam um romance com os meus dentes. Foi assim até que só vi o guardanapo e a xícara vazia.
            Mas não pense você que a história acabou... Não, está recém-começando! Puxei a minha carteira do bolso traseiro pra pagar o que devia ao moço e a decepção tomou conta do meu eu: só tinha dez reais. Perguntei ao moço quanto custava o que tinha comido e ele me respondeu:
- Oito reais da coxinha com três do café... Onze reais!
            Outra queda livre. Como ia pagar, sabendo que faltava um real? Pechinchei um desconto:
- Moço, agora que eu vi que só tenho dez reais. Você não me dá um desconto?
- Infelizmente não posso, não sou o dono daqui.
            I think I’d have a heart attack, com as mesmas palavras que Demi Lovato usou na sua música heart attack. O que eu iria fazer? Tentei propina, mas não deu muito certo. Prometi lavar os objetos usados, mas também não deu. Foi a maior tensão da minha vida! O ônibus estava prestes a me deixar e ninguém queria me emprestar um real.
- Vamo logo, cara, o pessoal quer ir embora!, gritou o motorista.
- Já vai, só um minuto!, gritei de volta.
            Puxei os dez reais da carteira, coloquei em cima do balcão e disse:
- Obrigado por me emprestar um real. Te devolvo na volta!
            O atendente, sem entender, ficou me olhando enquanto eu saía de boa pela porta. A reação dele, qualquer um teria, afinal, eu não pedi se ele me emprestava um real. Entrei no ônibus e fomos embora, como se nada tivesse acontecido. Olhei pela janela e não vi ninguém correndo atrás. Pensei “Menos mal, nem vieram atrás, hehe”. Olhei para a moça ao meu lado que, por sinal, estava comendo uma coxinha de carne. Sabe o que aconteceu? Ela tinha comprado coxinha. Mas não era nem uma, nem duas. Eram TRÊS coxinhas e então me ofereceu uma delas:
- Eu não vou vencer comer três. Quer uma?
- De graça?
- Sim, claro!
            Foi o melhor dia da minha vida. Começamos a namorar ali mesmo e já lhe pedi em casamento. Hoje completamos dez anos de amor e bondade. O nome dela? Você já sabe: Coxinha.
            Faça-me o favor, casar-se com uma coxinha? Quem é louco a esse ponto? Eu. E repetiria a mesma cena, só pra revê-la feliz. Amor platônico não é pra mim. Prefiro o tipo de amor que encha o bucho e que me sustente até meu último suspiro. Quem somos nós sem coxinha?

segunda-feira, 21 de março de 2016

Superego explosivo

Observe como tudo o que é mais difícil vem primeiro: próton e elétron. Luz e som. Fogo e água. Ódio e amor. Oração subordinada e coordenada. Ladrão e sensor. Carro e moto. Navio e barco. Caneta e lápis. Língua e fala. Palato mole e palato duro. Estudo e festa. Xerox e comida. Trabalhar e dormir. Escrever e ler. Ouvir e falar. Discutir e debater. Apresentar e assistir. Dança e teatro. Desenhar e pintar. Brigar e conversar. Pegar e largar. Digimon e Pokémon. Viver e morrer. Criar e customizar. Pagar e comprar. Mensagem e ligação. Lutar e desistir. Coreografar e sambar. Linguística e literatura. Fissão e fusão. Química orgânica e inorgânica. Teoria e prática. Einstein e Newton. Contras e prós. PSDB e PT. Ciência e mistério. Calcular e analisar. Estrutura interna e externa. Acentuação e pontuação. Etc. e entre outros.
            Mas existe uma dicotomia que precisa de uma análise mais interna, mais estrutural. A dicotomia que nos leva ao pensamento mais profundo do porquê de estarmos aqui. A dicotomia que nos diferencia de nós mesmos, evidenciando que ninguém é igual a alguém. A dicotomia do ser ou... deixar de ser? Como somos se, em algum momento, não fomos? Começamos a ser ou já éramos antes de, literalmente, sermos? Por que ser? Por que não ser? Se começarmos a ser, por que deixar de ser? E se não somos, por que querer ser? Se somos, temos que estar, inclusive. E o mesmo se repete com esse último. Ser um próton ou estar elétron? Ser uma luz ou estar num som? Ser o fogo ou estar na água? Ser o ódio ou estar no amor?
            E assim se propaga a nossa vida. Ficamos cada vez mais e mais presos, sem um pensamento mais crítico. Por que Shakespeare nos influenciou a pensar assim? Uns dizem que ele teria problemas mentais; outros diriam o contrário, que teria pensamentos críticos; e outros, simplesmente, diriam que se trata apenas de um pretexto que pode ou não fazer sentido. Por que ser a favor? Mas também, por que ser contra? Por que existimos se, às vezes, não somos? Ser é sinônimo de existir ou apenas uma variação do seu significado? E se existimos, devemos estar, mas não necessariamente ser? Confundir ou explicar? Refletir ou relatar? Porque ou por quê? Por que só optamos por uma escolha se, no final, podemos fazer tudo? Inglês ou espanhol? Existir e ser ou existir e estar?

- Amigo, isso é simples. Chama o superego, que tá tudo certo.