quinta-feira, 27 de abril de 2017

O garoto que não disse adeus

Olhem, que fofinho... Há dezenove anos, nasceu um bebezinho lindo, que, por sinal, pouco se parecia com seus pais. Todos que estavam dentro do centro cirúrgico olharam para aquela figurinha sapeca e, provavelmente, pensaram: Nossa, nada a ver com a mãe; com o pai, menos ainda! A famosa “cara de joelho” foi a expressão que todos usaram para designar tal aspecto de recém-nascido do bebê, ao contrário de sua mãe que, por conta do excessivo amor que sentia, pronunciou as mais sinceras palavras que alguém possa ter dito: Aaaaai, que lindo! E não demorou muito tempo para esse amor ser cada vez mais demonstrado.
            A criança que, antes, era aquele simples e amável bebê, passou a caminhar, a falar, a entender e a interpretar o mundo ao seu redor. Logo de cara percebeu o que são as sensações, os sentimentos e as emoções, por que os vilões sempre perdem para os heróis nos desenhos animados, como se faz pra desenhar, escrever e fazer continha e, mais além disso, já começou a desenvolver a famosa empatia. Dá uma olhadinha aqui no que esse garoto falou: Mãe, tu viu que eu fiço um desenho pa tia? Acho que ela vai gostá! Se isso não for empatia, então não sei o que é. E não para por aí, sabe por quê? Porque a criança cresceu.
            Mas não pense você que esse garoto era o tempo todo paparicado. NÃAAAO! Na escola, até mesmo com seus simplórios (e escalafobéticos?) sete anos, seus amiguinhos já começaram a taxa-lo por um termo bem... como posso dizer?! Inapropriado? Não, não é essa a palavra... Acho que posso usar impactante – gay. “Fulaninhoooo, seu gayzinhoooo hahahaha”. Choraaaava e chorava de medo de ser um “gayzinho”. E em casa não era diferente. Não se discutia sobre um filho ter dois papais ou duas mamães. Homem só pode se casar com mulher e mulher, com homem, dizia a família. A criança, sem entender direito o porquê desse tipo de conversa, saía da cozinha e ia brincar com seus brinquedinhos ou comer um lanchinho ou assistir a um desenho ou os três ao mesmo tempo, por que não? Foi crescendo até ser um pré-adolescente.
            O recém pré-adolescente passou a entender o conceito de sexo, a prática da ereção e, aí, começou a questionar-se sobre o sentido da vida: Por que vivemos? E, se vivemos, por que morremos?, pensava o pobre garoto. Seu lado infantil, lentamente, começa a desaparecer. As responsabilidades passam a ser jogadas na cara, como forma de mostrar que a imaginação não ajuda em nada (eu discordo, mas tudo bem, continuemos). Levanta daí e vem limpar esse chão, dizia sua mãe (e com razão, mas poderia ser menos grossa, né?!). A imaginação ainda acontecia, mas começou a perder a graça. Aquele sonho de ser um mutante superpoderoso já não tinha mais tanto sentido porque, de acordo com a física, é impossível usar a simples força da mente para parar um caminhão. E assim chegou a adolescência.
            Obscuridade, medo, insegurança, desequilíbrio hormonal e emotivo, risos, fome, sono, anseio, alegria, raiva, crise existencial, paixão e saudade da infância. Essas são as principais características de um adolescente e esse nosso garoto não fugia disso. Passou a descobrir em si mesmo novos modos de pensar e de ser. Descobriu, internamente, uma característica extremamente chocante e que precisava, de toda forma, ser oculta! Meu Deus, eu não posso contar pra ninguém!, pensava o tristonho. Mas isso não era tudo. As músicas, as palavras, as histórias, as leituras, as aulas, as amizades... Era uma confusão! Era perturbador deixar de ser criança! Cadê as paparicagens? Cadê as tarefas fáceis? Cadê o lanchinho servido no prato? Cadê a criatividade e a imaginação? Sumiram. Com 12 anos, o pobre garoto ainda estava tenso demais para viver.
            Mas como (quase) tudo na vida, as coisas negativas têm momento para acabar. Adeus, adolescência. Bem-vinda, juventude! As conturbações diminuíram, as espinhas, lentamente, começaram a secar e a aparência até que melhorou, mas só um pouquinho. O mais importante é que a essência se solidificou, o medo do garoto de ser ele mesmo passou a ir embora e somente assim contou pra família que era o dito “gayzinho”. Pronto. Bastou um desabafo, um descarrego do peso.
            Lembram daquele “lindinho recém-nascido”? E daquele garoto cheio de sonhos e esperanças? Lembram quando eu contei que ele saía da mesa pra ir brincar de imaginar? Pois é. Esse garotinho que, supostamente, tinha tudo para ser paparicado e amado por todos, na verdade, só era amado porque ainda não sabia falar e se expressar. As pessoas não amam o que somos quando nascemos, mas sim o que querem que sejamos. Esse lindo garoto apanhou dos pais e dos irmãos, foi expulso de casa e passou a viver sozinho. Até tinha amigos que o apoiavam, mas quem poderia mantê-lo desempregado? Foi complicado. O garoto morreu por dentro e não demorou muito pra morrer por fora também. Como estava na rua, morreu passando fome e foi embora sem ao menos dizer Adeus.

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