Olhem,
que fofinho... Há dezenove anos, nasceu um bebezinho lindo, que, por sinal,
pouco se parecia com seus pais. Todos que estavam dentro do centro cirúrgico
olharam para aquela figurinha sapeca e, provavelmente, pensaram: Nossa, nada a ver com a mãe; com o pai,
menos ainda! A famosa “cara de joelho” foi a expressão que todos usaram
para designar tal aspecto de recém-nascido do bebê, ao contrário de sua mãe que,
por conta do excessivo amor que sentia, pronunciou as mais sinceras palavras
que alguém possa ter dito: Aaaaai, que
lindo! E não demorou muito tempo para esse amor ser cada vez mais
demonstrado.
A criança que, antes, era aquele
simples e amável bebê, passou a caminhar, a falar, a entender e a interpretar o
mundo ao seu redor. Logo de cara percebeu o que são as sensações, os
sentimentos e as emoções, por que os vilões sempre perdem para os heróis nos
desenhos animados, como se faz pra desenhar, escrever e fazer continha e, mais
além disso, já começou a desenvolver a famosa empatia. Dá uma olhadinha aqui no
que esse garoto falou: Mãe, tu viu que eu
fiço um desenho pa tia? Acho que ela vai gostá! Se isso não for empatia,
então não sei o que é. E não para por aí, sabe por quê? Porque a criança
cresceu.
Mas não pense você que esse garoto
era o tempo todo paparicado. NÃAAAO! Na escola, até mesmo com seus simplórios
(e escalafobéticos?) sete anos, seus amiguinhos
já começaram a taxa-lo por um termo bem... como posso dizer?! Inapropriado?
Não, não é essa a palavra... Acho que posso usar impactante – gay. “Fulaninhoooo,
seu gayzinhoooo hahahaha”. Choraaaava e chorava de medo de ser um
“gayzinho”. E em casa não era diferente. Não se discutia sobre um filho ter
dois papais ou duas mamães. Homem só pode
se casar com mulher e mulher, com homem, dizia a família. A criança, sem
entender direito o porquê desse tipo de conversa, saía da cozinha e ia brincar
com seus brinquedinhos ou comer um lanchinho ou assistir a um desenho ou os
três ao mesmo tempo, por que não? Foi crescendo até ser um pré-adolescente.
O recém pré-adolescente passou a
entender o conceito de sexo, a prática da ereção e, aí, começou a questionar-se
sobre o sentido da vida: Por que vivemos?
E, se vivemos, por que morremos?, pensava o pobre garoto. Seu lado
infantil, lentamente, começa a desaparecer. As responsabilidades passam a ser
jogadas na cara, como forma de mostrar que a imaginação não ajuda em nada (eu
discordo, mas tudo bem, continuemos). Levanta
daí e vem limpar esse chão, dizia sua mãe (e com razão, mas poderia ser
menos grossa, né?!). A imaginação ainda acontecia, mas começou a perder a
graça. Aquele sonho de ser um mutante superpoderoso já não tinha mais tanto
sentido porque, de acordo com a física, é impossível usar a simples força da
mente para parar um caminhão. E assim chegou a adolescência.
Obscuridade, medo, insegurança,
desequilíbrio hormonal e emotivo, risos, fome, sono, anseio, alegria, raiva,
crise existencial, paixão e saudade da infância. Essas são as principais
características de um adolescente e esse nosso garoto não fugia disso. Passou a
descobrir em si mesmo novos modos de pensar e de ser. Descobriu, internamente,
uma característica extremamente chocante e que precisava, de toda forma, ser
oculta! Meu Deus, eu não posso contar pra
ninguém!, pensava o tristonho. Mas isso não era tudo. As músicas, as
palavras, as histórias, as leituras, as aulas, as amizades... Era uma confusão!
Era perturbador deixar de ser criança! Cadê as paparicagens? Cadê as tarefas
fáceis? Cadê o lanchinho servido no prato? Cadê a criatividade e a imaginação?
Sumiram. Com 12 anos, o pobre garoto ainda estava tenso demais para viver.
Mas como (quase) tudo na vida, as
coisas negativas têm momento para acabar. Adeus, adolescência. Bem-vinda,
juventude! As conturbações diminuíram, as espinhas, lentamente, começaram a
secar e a aparência até que melhorou, mas só um pouquinho. O mais importante é
que a essência se solidificou, o medo do garoto de ser ele mesmo passou a ir
embora e somente assim contou pra família que era o dito “gayzinho”. Pronto.
Bastou um desabafo, um descarrego do peso.
Lembram daquele “lindinho
recém-nascido”? E daquele garoto cheio de sonhos e esperanças? Lembram quando
eu contei que ele saía da mesa pra ir brincar de imaginar? Pois é. Esse garotinho
que, supostamente, tinha tudo para ser paparicado e amado por todos, na
verdade, só era amado porque ainda não sabia falar e se expressar. As pessoas
não amam o que somos quando nascemos, mas sim o que querem que sejamos. Esse
lindo garoto apanhou dos pais e dos irmãos, foi expulso de casa e passou a
viver sozinho. Até tinha amigos que o apoiavam, mas quem poderia mantê-lo
desempregado? Foi complicado. O garoto morreu por dentro e não demorou muito
pra morrer por fora também. Como estava na rua, morreu passando fome e foi
embora sem ao menos dizer Adeus.
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