terça-feira, 22 de março de 2016

Com amor, coxinha

A tal da coxinha é complicada. Não é fácil imaginar algum alimento que se compare ao sabor dessa danada! Essa textura exuberante, estilo violão pontiagudo, que remete a uma resplandecência nos quesitos cor atraente e beleza externa... Ah, como eu quero uma coxinha!
            O problema é que, geralmente, seu preço sai caro. Ainda mais nesses restaurantes de viagem que a gente para pra jantar. Numa ida minha a São Paulo, perguntei pro atendente:
- Moço, quanto custa a coxinha?
            E, com olhar de esperança e alegria, respondeu-me:
- Oito reais... Quer uma?
            Cair pra trás foi pouco pra descrever esse momento. É como se você estivesse sendo assaltado, tendo que escolher entre a sua vida e a da sua mãe. Oito reais? Que isso?! Fiquei indignado. Só que, se você parar para pensar, uma coxinha é uma coxinha e deve ser respeitada como tal! Pra que julgá-la por ser tão gostosa? Sua delícia compensa seu preço. Respondi:
- Sim, me dá uma de carne, por favor!
- Beleza, só um momento, que eu vou esquentar ela pra você...
            Fiquei ansioso e exaltado. Há quanto tempo não comia uma coxinha? Uns três dias? É, por aí...
            A coxinha estava quente. Fiquei atraído pelo seu cheiro e quase virei de ponta-cabeça por conta da sua preciosidade. Peguei o prato com a delícia estampada e fui pra mesa, pedindo que o garçom me servisse um pouco de café preto. Sentei-me e ele me serviu. Comi a coxinha como se estivesse morrendo de fome ou coisa do tipo. Aqueles pedaços maravilhosos feitos de ouros comestíveis se entrelaçavam com a minha língua e formavam um romance com os meus dentes. Foi assim até que só vi o guardanapo e a xícara vazia.
            Mas não pense você que a história acabou... Não, está recém-começando! Puxei a minha carteira do bolso traseiro pra pagar o que devia ao moço e a decepção tomou conta do meu eu: só tinha dez reais. Perguntei ao moço quanto custava o que tinha comido e ele me respondeu:
- Oito reais da coxinha com três do café... Onze reais!
            Outra queda livre. Como ia pagar, sabendo que faltava um real? Pechinchei um desconto:
- Moço, agora que eu vi que só tenho dez reais. Você não me dá um desconto?
- Infelizmente não posso, não sou o dono daqui.
            I think I’d have a heart attack, com as mesmas palavras que Demi Lovato usou na sua música heart attack. O que eu iria fazer? Tentei propina, mas não deu muito certo. Prometi lavar os objetos usados, mas também não deu. Foi a maior tensão da minha vida! O ônibus estava prestes a me deixar e ninguém queria me emprestar um real.
- Vamo logo, cara, o pessoal quer ir embora!, gritou o motorista.
- Já vai, só um minuto!, gritei de volta.
            Puxei os dez reais da carteira, coloquei em cima do balcão e disse:
- Obrigado por me emprestar um real. Te devolvo na volta!
            O atendente, sem entender, ficou me olhando enquanto eu saía de boa pela porta. A reação dele, qualquer um teria, afinal, eu não pedi se ele me emprestava um real. Entrei no ônibus e fomos embora, como se nada tivesse acontecido. Olhei pela janela e não vi ninguém correndo atrás. Pensei “Menos mal, nem vieram atrás, hehe”. Olhei para a moça ao meu lado que, por sinal, estava comendo uma coxinha de carne. Sabe o que aconteceu? Ela tinha comprado coxinha. Mas não era nem uma, nem duas. Eram TRÊS coxinhas e então me ofereceu uma delas:
- Eu não vou vencer comer três. Quer uma?
- De graça?
- Sim, claro!
            Foi o melhor dia da minha vida. Começamos a namorar ali mesmo e já lhe pedi em casamento. Hoje completamos dez anos de amor e bondade. O nome dela? Você já sabe: Coxinha.
            Faça-me o favor, casar-se com uma coxinha? Quem é louco a esse ponto? Eu. E repetiria a mesma cena, só pra revê-la feliz. Amor platônico não é pra mim. Prefiro o tipo de amor que encha o bucho e que me sustente até meu último suspiro. Quem somos nós sem coxinha?

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